HISTÓRIA DE UM CANDANGO POR TRINTA DIAS

“Candango” é como carinhosamente são chamados aqueles que nasceram ou moram no Distrito Federal. Mas o termo ficou especialmente ligado à leva de nordestinos, mineiros, goianos e tantos outros brasileiros que aportaram no Planalto Central para trabalhar na construção de Brasília. Eu fui “candango” por trinta dias, nos idos de 1960, precisamente entre o mês de março e o dia 16 de abril daquele ano.

Vou lhes contar a minha história.

De origem humilde, filho de professora e de um marceneiro/carpinteiro, acompanhei de perto a aventura de meu pai, Nolberto Fernandes de Lima, baiano de Caetité-BA, que, à época da construção de Brasília, movido pelo sonho do progresso e pelo desejo de melhorar as condições de vida da família, resolveu também se lançar naquele grande empreendimento.

A aventura, porém, já fazia parte da história de nossa família. Meu pai havia chegado a Goiás ainda criança, na década de 1920, vindo da Bahia em uma viagem feita no lombo de animais de carga. Meu avô, Jovino, trouxe a família e parentes e se instalou em Rio Verde, Goiás, também conhecida como a Terra das Abóboras.

Voltemos, então, aos anos de 1959 e 1960.

Meu pai resolveu “arriscar”. Hoje, talvez, eu dissesse “empreender”. Estimulado pela abundância de trabalho em Brasília e pelos valores que ali eram pagos, adquiriu algumas máquinas para raspar tacos. Naquela época, os pisos de madeira eram raspados e encerados. A aplicação de verniz para piso ainda era uma novidade, geralmente reservada às construções e residências de pessoas de maior poder aquisitivo.

De malas prontas, lá se foi mais um candango para Brasília.

Não demorou a encontrar trabalho para suas máquinas. O ritmo das construções era acelerado. Afinal, a nova Capital Federal tinha data para ser inaugurada: 21 de abril de 1960. Esse era o desejo daquele que, sem dúvida foi  o maior tocador de obras que o Brasil conheceu, o saudoso presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.

No mês de março daquele ano, fui levado para trabalhar com meu pai.

Eu tinha dezessete anos. Entusiasmo não me faltava. Todo goiano sonhava que Brasília, erguida no coração do Brasil dentro do território goiano, traria para nossa região o tão esperado progresso.

Quem sabe até espantaria as onças das ruas de Goiânia...

É que paulistanos e cariocas diziam que por aqui havia onça andando pelas ruas. Deviam estar falando das de duas pernas. Essas, sim, são vorazes: comem rebanhos, empresas, fazendas... E, até hoje, se encontrar uma delas, tome cuidado!

Aos dezessete anos, portanto, integrei a equipe e trabalhei em várias frentes. Por apenas trinta dias, é verdade, mas fui candango — e disso me orgulho. Das janelas dos edifícios onde trabalhávamos, eu observava o movimento alucinante das máquinas, retirando terra, colocando terra, abrindo caminhos, construindo aterros e trincheiras. E o vento carregava e espalhava poeira para todo lado.

Eu ficava imaginando como Oscar Niemeyer, na arquitetura, e Lúcio Costa, no urbanismo, haviam conseguido tirar aquela cidade do papel e fazê-la surgir no Planalto Central. Mas havia algo que os desenhos e projetos, sozinhos, não poderiam fazer, construir a cidade, oculto estava o ideal de Juscelino. Para isso, foi necessário o esforço incessante de milhares de candangos, homens que deixaram suas terras, suas famílias e seus costumes para ajudar a erguer, em pleno cerrado, a nova Capital do Brasil.

Brasília não podia parar.

O serviço exigia duas equipes: uma trabalhava durante o dia e outra durante a noite. Quando uma terminava, a outra assumia. Não havia tempo nem para a máquina esfriar. Nos canteiros de obras, divididos por quadras, havia o chamado “Rancho”, local onde eram servidas as refeições aos trabalhadores. O Rancho funcionava dia e noite, porque dia e noite havia gente trabalhando.

A maioria daqueles homens vinha do Nordeste, Minas Gerais e Goiás. Cada um carregava consigo sua própria história e, certamente, guardava seus sonhos. Ninguém estava ali pensando apenas em cumprir uma jornada de seis ou oito horas. Havia um compromisso com o trabalho e com a conclusão da obra no prazo marcado pelo presidente.

Naquele cerrado goiano, Brasília precisava ficar pronta.

E ficaria.

Meu trabalho era na raspagem dos tacos dos apartamentos funcionais. Tudo era feito conforme a orientação dos engenheiros responsáveis pelos canteiros. Primeiro, fazia-se uma boa varredura nos cômodos. Depois, com uma vassoura, espalhava-se óleo diesel sobre o piso. Após a secagem, entravam em ação as máquinas lixadeiras. Começávamos com uma lixa mais grossa, que retirava as imperfeições e clareava a madeira dos tacos. Depois, utilizávamos uma lixa fina para dar o acabamento. Em seguida vinha o calafeto, destinado a fechar as pequenas fissuras existentes entre os tacos.

E aí estava uma das curiosidades daquele trabalho.

O próprio pó da madeira produzido durante a lixação era aproveitado. Misturávamos esse pó a uma cola, então existente, feita de cartilagem bovina. A cola precisava ser derretida no fogo, com um pouco de água, para depois ser misturada ao pó da madeira, formando uma massa fina que era aplicada entre os tacos. Era tudo bastante artesanal. Depois do calafeto, passava-se novamente a lixa fina e, por último, uma mão de cera de carnaúba.

Pronto!

O encarregado da obra vinha fazer a conferência. Verificava o serviço, anotava a metragem executada e calculava o valor a receber.

Assim eram os nossos dias.

Enquanto nós raspávamos, lixávamos e encerávamos os pisos, milhares de outros candangos, cada qual em seu ofício, trabalhavam para que uma cidade inteira ficasse pronta.

E o relógio corria.

A inauguração seria no dia 21 de abril de 1960. Infelizmente, voltei para Goiânia no dia 16 de abril. Faltavam apenas cinco dias.

 Não pude permanecer em Brasília para assistir à inauguração daquela cidade que, ainda coberta de poeira, eu havia visto nascer diante dos meus olhos.

Foram apenas trinta dias.

Trinta dias como candango.

Passaram-se muitos anos, mas permanece viva em minha memória a lembrança daqueles dias, das máquinas trabalhando sem parar, da poeira levantada pelo vento, dos homens vindos de tantos lugares e da esperança que parecia acompanhar cada obra que se erguia no cerrado.

Não assisti à inauguração de Brasília.

Mas tive o privilégio de, ainda que por apenas trinta dias, ajudar a construi-la.

Goiânia, 11 de agosto de 2026.

Walmir Martins de Lima

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