Em memória de Claudia Rachel de Lima
Caros
amigos,
Depois
de um longo período em silêncio, senti que era hora de voltar a escrever. O
silêncio, nesses últimos anos, não foi vazio — foi preenchido por dor, angústia
e uma luta que parecia não ter fim. Hoje, encerro um ciclo. E, ainda que com o
coração ferido, encontro forças para falar com aqueles que sempre me
acompanharam. Agradeço a todos familiares e amigos que comigo lutaram.
Talvez
esta seja minha última — ou mais profunda — kátharsis.
Por
mais de vinte anos, tive o privilégio e a missão de caminhar ao lado da minha
filha, Claudia Rachel de Lima. Em 2005, ela foi diagnosticada com câncer. Desde
então, enfrentou três recidivas, duas cirurgias, incontáveis sessões de
quimioterapia e radioterapia, dezenas de transfusões de sangue, além de longos
períodos de tratamento paliativo.
Foram
anos de resistência.
Anos
em que vi uma jovem lidar com dores que poucos suportariam. A perda dos seus
lindos e longos cabelos não era apenas estética — era um golpe na sua
identidade, na sua juventude. Houve lágrimas, momentos de tristeza profunda, e
até de desespero. Mas, ainda assim, havia vida. Havia luta.
Como
se não bastasse a batalha contra a doença, enfrentamos também uma dura e
desgastante luta judicial contra o plano de saúde, em busca do básico: o
direito ao tratamento e à vida. Foram anos de embates, conduzidos com firmeza
por seu irmão, até que a justiça prevaleceu. Ao final, vencemos — não por
privilégio, mas porque a vida deve estar acima de contratos frios e interesses
financeiros.
No
dia 25 de abril de 2026, às 21h57, Jesus a chamou.
Prefiro
assim entender: não como perda, mas como libertação.
Após
mais de duas décadas de sofrimento, acredito, com toda a minha fé, que ela foi
retirada das trevas da dor para encontrar a luz da paz. Hoje, imagino minha
filha sorrindo novamente — aquele sorriso largo, sincero, que tantas vezes
iluminou os nossos dias.
Claudia
não apenas passou pela vida. Ela viveu — intensamente, à sua maneira. Filha
obediente, as vezes teimosa com suas opiniões, mas sempre era cordata.
De
personalidade forte, inquieta, questionadora, nunca se contentava com respostas
simples. Não aceitava o “porque sim”. Queria entender, aprofundar, desafiar. E
isso, confesso, muitas vezes me colocava à prova como pai.
Concluiu
sua formação em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica, onde
desenvolveu interesse profundo por geopolítica e pelas dinâmicas do mundo.
Tinha convicções firmes — e não hesitava em defendê-las.
Na
fé, era igualmente intensa. Cristã fervorosa, evangelizava com coragem e
convicção, em qualquer lugar: em filas, salas de espera, no trabalho. Para
alguns, era exagero. Para ela, era missão. Não negociava suas crenças. Não
aceitava superficialidades. Questionava líderes religiosos, criticava desvios,
e defendia com veemência aquilo que entendia como a verdadeira mensagem de
Cristo.
Era,
acima de tudo, autêntica.
Também
trilhou sua vida profissional com dignidade. Trabalhou no Banco do Brasil, no
Governo do Distrito Federal, na Assembleia Legislativa de Goiás, na Câmara
Municipal de Goiânia e no Tribunal de Contas do Estado de Goiás. Buscou ainda
empreender, com coragem, criando sua própria confecção de jeans — sonho
interrompido pela pandemia e pelo agravamento da doença.
Enfrentou,
mais tarde, outra batalha: a burocracia impiedosa do sistema previdenciário.
Mesmo debilitada, precisou recorrer ao Judiciário para garantir um direito
básico à subsistência. E, mais uma vez, venceu, com apoio do seu irmão, após
cinco anos de embate judicial.
Nos
últimos anos, contou com o apoio dedicado de médicos que, com humanidade e
sensibilidade, aliviaram não apenas suas dores físicas, mas também trouxeram
palavras de esperança.
Ainda
assim, o sofrimento foi imenso.
As
sequelas do tratamento, como o diabetes severo, exigiam vigilância constante.
Era uma rotina dura, exaustiva, marcada por limitações e desafios diários.
Por
isso, repito: foram anos de trevas.
E
é por isso que hoje escolho acreditar na luz.
Creio
que ela agora está em paz. Livre. Curada. Inteira.
Siga,
minha filha, na sua nova jornada. Seja feliz — como você merece. Aqui, fico eu,
com a saudade que aperta o peito e com as orações que jamais cessarão.
A
sua ausência dói profundamente. Nos primeiros dias, o choro vem sem pedir
licença. Tento ser forte, mas ainda não consigo. Talvez nunca consiga.
Mas
o amor…
Ah,
o amor permanece.
E
é ele que me sustenta.
Goiânia, 30 de abril de 2026.

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