FALANDO DE POLÍTICA

A canoa furada do “plano do atraso”

Patético! Não encontro outra definição para o que acabei de ouvir no rádio do carro, hoje pela manhã, a caminho do trabalho. O noticiário comentava os deslocamentos de campanha dos candidatos à Presidência da República nas eleições de outubro.

A notícia trazia um resumo dos planos de governo apresentados pelos candidatos. Sendo uma pessoa que, no alto dos meus 83 anos, já ouviu promessas e mentiras de sobra — promessas nunca cumpridas, mentiras repetidas até se vestirem de verdade —, eu me julgava blindado contra qualquer surpresa. Enganei-me.

Fiquei estarrecido ao ouvir o plano de governo do candidato do PSTU. Não captei o seu nome, mas guardei a apresentação: professor universitário, ativista do movimento negro. Até aí, nenhum problema — foi a escolha dele, e eu a respeito. O problema é o que ele chama de plano de governo e que eu chamaria, sem cerimônia, de PLANO DO ATRASO.

Vejamos alguns pontos. Um amplo programa de reestatização, porque seria preciso mais Estado na economia — como se os Correios, sem concorrência e no vermelho ano após ano, fossem a melhor propaganda dessa tese. Reestatizar as telefônicas? Deus me livre! Se elas ainda estivessem nas mãos do Estado, o Brasil não teria os mais de 250 milhões de celulares em uso, nem redes sociais tão pulsantes quanto são hoje — e, convenhamos, talvez os pais até agradecessem um pouco menos de tela grudada nos olhos dos filhos, mas pagar esse preço com atraso tecnológico sairia caro demais.

Petróleo? Não explorar, porque é preciso buscar fontes alternativas. E como se chega a essas fontes sem pesquisa, sem investimento, sem ciência? Com estudantes formados por professores que pensam como esse candidato? É o suprassumo do atraso vestido de vanguarda.

E, claro, não podia faltar o cardápio completo: taxar as grandes fortunas; dobrar o salário mínimo sem dizer de onde sairia o dinheiro; revogar a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista; acabar com a terceirização. Um pacote que, com variações, já foi tentado em outros países — basta olhar a Venezuela, a Argentina de tempos não tão distantes, ou a própria Cuba — e que raramente termina em prosperidade. Termina em fila, em escassez e em gente boa pagando a conta de promessas bonitas.

CONCLUSÃO: sei que esse candidato vai colher seus votinhos, de gente que pensa como ele — é assim que funciona a democracia, e não questiono o direito de ninguém votar em quem quiser. Mas, refletindo, sinto pena dos negros — me incluo entre eles — por terem, num ativista como esse, alguém que se apresenta como sua voz. Embarcamos, mais uma vez, numa canoa furada. E furada, dessa vez, com o verniz de causa nobre.

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