Parafraseando o comediante Paulinho Gogó, “quem não tem
dinheiro? Conta história!”
Nos idos de 1969, trabalhando no Banco do Brasil, em uma
cidade do interior Goiano, fui surpreendido por convite do gerente da agência
local, para resolver um problema financeiro de um colega de trabalho que
chegara ao seu conhecimento. A preocupação do chefe, era aquela situação
respingar na Instituição BB.
Vamos aos fatos: voltando um pouco no tempo, entre os anos de
1964/1966, por concurso público nacional foram admitidos vários funcionários
para suprir às necessidades do Banco, jovens vindos de diversas localidades do
País, do interior de São Paulo e Minas foram empossados, acho eu, mais de dez
novos bancários. Como não poderia deixar de lembrar naquela época ser admitido
como funcionário do BB era ganhar na loteria, emprego seguro, bons salários,
respeito da sociedade, disputado pelas moças casamenteiras.
Não bastasse esse privilégio, alguns resolveram empreender,
pois vindo de regiões mais desenvolvidas perceberam vários nichos de negócios
que, seguramente não atrapalharia a sua dedicação ao Banco. No regulamento
constante das Cartas de Instruções que dispunha que o servidor deveria ter
dedicação integral, havia sempre o famoso “jeitinho”.
Um certo colega, vindo de uma desenvolvida região do interior
de São Paulo, percebeu que poderia negociar com calçados destinados aos
trabalhadores e às famílias mais simples. Para começar tinha pouco capital, mas
o seu emprego e a fama de boas pessoas lhe avalizavam para buscar o dinheiro
fácil dos agiotas que até hoje no interior disputa clientes com Bancos e sem
muita burocracia.
Dinheiro na mão e crédito à disposição danou-se a comprar e
vender calçados nos finais de semanas e feriados, se deslocando para cidades
vizinhas e vendendo, botinas, botas, sandálias e alguns sapatos. O negócio ia
bem nas vendas, porém o retorno era fraco, a inflação beirava os 25% a.a.
Em razão de protestos estudantis no ano de 1968, o então
Presidente da República o Marechal/General Artur da Costa e Silva, visando
conter os protestos, editou o ATO INSTITUCIONAL Nº 5, não preciso tecer
considerações sobre o AI 5, mas assustou geral, principalmente quem tinha
"rabo grosso".
Nessa toada, o negócio do meu colega fracassou, e os agiotas
queriam receber, e eram em torno 12 financiadores. Então para equacionar a
situação, fui o escolhido, razões não faltaram ao meu gerente para me convencer
dessa tarefa extra banco. Aceitei o desafio, chamei o colega autor do imbróglio
e lhe comuniquei que fora designado para resolver o problema. Para tanto eu
precisava saber a quem ele devia, o valor de cada empréstimo, a data de início
e a taxa de juros, enfim como estava a situação com cada agiota, alguns as
parcelas de juros mensais estavam em dia, outras com atraso, mas em razão do
endurecimento geral que o AI 5 provocou os Agiotas queriam o “seu” de volta, aí
o AI 5 implantou o caos. Me entregou a relação de crédito a receber com os
nomes e localizações dos devedores. Fazendo uma cotação das informações que me
foram repassadas, constatei que se houvesse liquidez 100%, seria suficiente
para pagar suas dívidas.
Reuni com os credores, expus a situação e pedi um prazo para
levantar os recursos, adiantei-lhes que após visitar todos os devedores, faria
uma nova reunião para colocá-los a par da situação. Procurei um amigo que
possuía uma camioneta de carroceria de madeira e partimos para a tarefa de
cobrança. Em uma semana fizemos todo trabalho, recebemos um pouco de dinheiro,
mercadorias que não tinham sido
vendidas, e outras, como lata de 18 litros de querosene, sacos de sal para
alimentar bovinos, panelas de alumínio, rolos de arames farpados, enfim uma
gama variada de produtos, inclusive bens de uso pessoal: Geladeira, vitrola,
fogão a gás, camas e colchões. Colocamos valor e concluímos que se os credores
aceitassem receber as mercadorias, daria para pagar em torno de 50% da dívida.
Quanto ao dinheiro recebido, fiz-lhes uma proposta:
compraríamos um pequeno caminhão e uma linha para coleta de leite nas fazendas
até o laticínio e com a renda, poderíamos amortizar mais 20% no prazo de 6
meses. Depois de muitos protestos o acordo foi assinado, com a expectativa de
recebimento de até 70%, melhor, pois a espada do AI 5 estava na cabeça dos
agiotas, ainda lembravam da refrega após 1964, quando muitos foram presos por
prática de usura e sonegação. Entre eles acertaram a retirada dos lotes de mercadorias.
Após alguns dias, registrei um fato: fui procurado por um dos
agiotas que, com cara de Maria arrependida, choramingava que o seu prejuízo
fora maior. Fiquei surpreso porque ele foi o primeiro a escolher e ficou com um
grande lote de botinas, pois sendo comerciante local poderia vendê-las com
facilidade. No entanto, dera com os burros n'água, ao separar as botinas
verificou que só existiam as de número 42 e 44, não vou conseguir vender aqui
na região não tem baianos. Depois... fiquei pensando: será?
Em 6 meses missão cumprida. A vida que segue.
14 DE AGOSTO 2026
Walmir Martins de Lima
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