O descarrilamento do trem rubro-negro

Houve tempo, paciência e até boa vontade para esperar resultados das mudanças promovidas pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e por seu homem de confiança no futebol, José Boto. Até agoa, porém, a prometida modernização parece menos um projeto esportivo e mais uma sucessão de decisões mal explicadas, sustentadas por arrogância, improvisação e uma preocupante incapacidade de reconhecer os próprios erros.

A demissão de Filipe Luís - técnico e símbolo do Flamengo vencedor de 2025 - foi o primeiro sinal de que o clube poderia estar perdendo o rumo. Desde então, a sensação é de que o Flamengo foi colocado sobre trilhos defeituosos. O trem ainda avançava por força da qualidade do elenco, mas o risco de descarrilamento já estava anunciado. Em meados de 2026, o que parecia apenas um temor transformou-se em realidade esportiva.

Bap comporta-se como se fosse proprietário do Flamengo, e não presidente temporário de uma instituição centenária. Falta-lhe humildade para ouvir, serenidade para administrar e transparência para prestar contas. E há uma contradição evidente em sua pose de renovador: embora tenha sido eleito como representante da oposição, participou do grupo político que comandou o clube anteriormente. Vende ruptura, mas carrega no currículo o DNA da continuidade. Trocaram-se os discursos; os vícios permaneceram.

Uma demissão sem coragem nem transparência

A saída de Filipe Luís foi cercada por ruído, versões desencontradas e um constrangedor jogo de empurra. Afinal, quem decidiu pela demissão: José Boto ou Bap? Nos primeiros momentos, ninguém parecia disposto a assumir a responsabilidade. Dias depois, ambos admitiram que o destino do treinador já estava selado antes mesmo da final do Campeonato Carioca.

A goleada por 8 a 0, que em qualquer ambiente minimamente racional provocaria ao menos uma reavaliação, não significou absolutamente nada para a diretoria. A decisão estava tomada, independentemente do desempenho em campo. Não houve análise: houve sentença. E quando os fatos deixam de importar, a gestão abandona a racionalidade e passa a ser conduzida por vaidades pessoais.

José Boto e a distância entre a fama e a entrega

José Boto chegou ao Flamengo cercado de empáfia e embalado pela reputação de especialista em observação e montagem de elencos. Até aqui, no entanto, a imagem construída no discurso é muito maior do que o trabalho apresentado. O suposto grande scout ainda não demonstrou capacidade proporcional ao poder que recebeu. Quando se examinam suas decisões, sobra pose e falta resultado.

O maior exemplo é a contratação de Leonardo Jardim. Trata-se de um treinador de currículo respeitável, mas cujo trabalho no Flamengo produziu, até agora, um time descaracterizado, burocrático e assustadoramente previsível. A equipe que antes pressionava, sufocava e impunha seu jogo passou a tocar a bola para trás como se a própria meta fosse uma ameaça.

O Flamengo já não controla as partidas, não sabe administrar vantagens e raramente encurrala o adversário. Pior: jogadores reconhecidos pela criatividade e pela capacidade individual parecem presos a um modelo que limita suas virtudes. Em vez de potencializar o elenco, Jardim o domesticou. Transformou talento em cautela, agressividade em hesitação e protagonismo em burocracia.

É natural, portanto, que a arquibancada manifeste sua indignação. A torcida do Flamengo não costuma aceitar passivamente um time rico, caro e tecnicamente qualificado jogando um futebol pobre. Os protestos contra o treinador, Boto e Bap serão consequência direta do que se vê em campo e da falta de respostas fora dele. Quem administra o Flamengo precisa compreender que cobrança não é ingratidão: é parte inseparável da grandeza do clube.

O maquinista do desastre

Bap justificou a demissão de Filipe Luís dizendo que sentia o trem seguindo pelo trilho errado. A metáfora agora se volta contra ele.

Presidente, olhe pelo retrovisor: foi sua gestão que mudou os trilhos, escolheu os condutores e acelerou na direção equivocada. O Flamengo não se perdeu sozinho. Foi empurrado para esse caminho por decisões tomadas sem transparência, sustentadas por vaidade e protegidas por discursos que já não resistem aos resultados.

O trem rubro-negro está perto do descarrilamento. E, se isso acontecer, não será obra do acaso, da arbitragem ou da falta de sorte. Será consequência direta de uma gestão que confundiu autoridade com soberba, planejamento com voluntarismo e o Flamengo com propriedade particular.

A essa altura, talvez só São Jorge para proteger o clube. Porque, de seus dirigentes, a torcida já aprendeu a não esperar milagres.

Goiânia, 31 de julho de 2026

Walmir Martins de Lima

 

 

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